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Valores humanos fundamentais: a bondade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.12.12

É a segunda vez que It's a Wonderful Life é colocado aqui a navegar, e talvez seja o filme mais visto nesta época de boa vontade. Em vez de bondade, poderia ter escolhido o valor respeito pelo próximo, ou mesmo empatia, colocar-se no lugar do outro, ou até mesmo maturidade. Mas aqui o nosso herói vai mais longe, coloca os outros à sua frente, um dia será a sua vez. Porque a vida lhe vai mostrando que há sempre alguém que precisa de ser salvo, apoiado, valorizado. Talvez porque só ele, a sua consciência de uma maturidade precoce, consiga ver o que os outros não vêem. É como se o seu papel na comunidade fosse maior do que um projecto individual: uma boa profissão, uma casa confortável, uma família. É o que a maior parte dos jovens sonha para si. Perfeitamente compreensível.

 

Não será assim para George Bailey. Vai adiar o curso e as viagens pelo irmão mais novo, aquele que num dia da infância salvara de morrer afogado. E vai adiar novamente esse sonho porque terá de ser ele a continuar o projecto do pai: um banco local de pequenos empréstimos, sempre no limite da sua capacidade mas uma base fundamental para a sobrevivência de muitas famílias. O papel de George Bailey tornou-se, pois, mais abrangente, maior do que ele próprio.

 

 

Em muitos aspectos fundamentais da vida, este filme é muito actual. As interacções humanas estão a descaracterizar-se e as bases de coesão social estão a perder-se. É esse o mundo de Potter, o homem mais rico da comunidade que coloca o lucro e o poder acima de todas as dimensões da vida. Hoje o mundo pertence cada vez mais aos Potter, disso não há dúvida nenhuma. E não é apenas o lucro e o poder que habitam os olhos manhosos desse homem, é o ódio e o desprezo pelos mais fracos e desamparados. Será ele a dizer ao nosso herói que nada vale, está falido, o seu sonho morreu, que valia mais morto do que vivo.

E é precisamente este o pedido desesperado de George Bailey: mais valia não ter nascido. Desta vez será um anjo a resposta ao seu desespero. E a neve para de cair, ele deixa de existir, e será o anjo a acompanhá-lo nessa outra dimensão em que ele não existe.

E é nessa diferença entre o mundo onde ele não existe e o mundo que ele habitou, que percebe que a sua vida teve um sentido, uma influência benéfica: as vidas que tocou e influenciou, de forma vital, determinante. Tudo tinha valido a pena, as decepções, as contrariedades, os obstáculos, as dificuldades. Tinha prevalecido a bondade, muito mais forte do que todos os Potter deste mundo.

 

Reparem sobretudo na diferença entre esses dois mundos: o mundo dominado pelos Potter e o mundo estruturado pela bondade.

É esta a mensagem que hoje retiro deste Capra, e de novo com James Stewart. Capra é o realizador que mais percebeu e interiorizou a época natalícia, a época dos homens de boa vontade.

Todas as cenas têm um significado muito forte. As minhas preferidas são as que se referem ao projecto de George Bailey, o Bailey Park, as habitações confortáveis a baixo custo, permitir a cada um uma vida digna.

 

 

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publicado às 20:13

"Vou ali abaixo defender os meus direitos"

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 02.04.09

 

Esta line do Marlon Brando é já perto do final. On the Waterfront deixou-me uma marca para sempre... e logo à primeira. E já o devo ter visto umas cinco vezes...


Aquela atmosfera só podia ter sido conseguida pelo Elia Kazan. Uma atmosfera densa e tensa, do início ao fim. Em que o próprio ar parece ter electricidade.
As imagens são tão poéticas, mesmo toda aquela zona descaracterizada do porto... e aquele parque... e aquelas ruelas sombrias...
E as personagens... De todas, a mais improvável, o Terry Malloy, promissor lutador de boxe profissional, que podia ter sido alguém, como o próprio dirá ao seu irmão corrupto, ao das apostas e das manobras de intimidação do Sindicato. Improvável, por ter crescido entre mafiosos, com os valores distorcidos, mas que lhes resiste sempre, até ao fim. É certo que, para sobreviver até ali, obedecera sempre ao irmão, mas sem passar os limites. Até perceber que não podia ser neutro.
E é uma rapariguinha saída de um colégio de freiras, que lho vai mostrar. É a coragem e a convicção da rapariga que o irão pôr em acção. A rapariga que aparece na sua vida da forma mais estranha: ele sabia quem lhe matara o irmão, era testemunha de um crime. Mas será apenas mais tarde, com a morte do seu próprio irmão, que avançará com a denúncia dos criminosos.


Todas as cenas no telhado, onde Terry cuida dos pombos, são verdadeiramente poéticas... É como se tudo fosse simbólico: o céu (telhado), a paz (pombos), e lá em baixo... a luta e a morte.
Assim como todas as cenas ao longo do parque... aqueles diálogos poéticos... o que se diz, o que fica por dizer e o que fica suspenso...
Todas as cenas destes dois, tão diferentes, e no entanto, tão milagrosamente próximos. De tal forma próximos que é essa proximidade que os irá transformar. Ele, acordar para a revolta e para a exigência dos seus direitos. Ela, para assumir a sua sensualidade e aprender a confiar no amor.


Também é um Padre, o corajoso Father Barry, que lidera a resistência pacífica destes homens explorados e subjugados. E todo o seu discurso nos dirige para os valores cristãos, ali tão esquecidos. É o pai protector, no fundo, que nunca os abandonará. É interessante ver, antes mesmo da possibilidade de uma nova Igreja sonhada, a de João XXIII, esta Igreja do Father Barry, mais próxima da vida real e dos homens que sofrem. A cena no armazém, depois da morte de um homem que arriscou desmontar o controle do Sindicato, em que o Padre se refere a esse Cristo também ele morto pela verdade e dignidade dos homens, é verdadeiramente comovente.


E chegámos à line do rapaz já homem: Vou ali abaixo defender os meus direitos.
A luta final (e desleal) com o Johnny Friendly deixam-no fora de combate, e é um homem ensanguentado e cambaleante que vemos aparecer, passo a passo, para iniciar um novo dia de trabalho nas docas. Já sem o domínio e controle do Sindicato. Porque só assim os outros homens, que ali trabalham, o seguem.

 

Os homens têm esta marca registada do predador-vítima, esta violência hereditária. E da cobardia que se refugia tantas vezes no grupo e que aceita o inaceitável. E que precisa do sacrifício de uma vítima para acordar.
A dignidade conquista-se, essa é outra das mensagens. Nunca é garantida. (Ainda não é a liberdade como a da estátua, a do símbolo americano, porque um homem livre pode escolher e estes homens estão condicionados à vida das docas).
A dignidade de um trabalho, ainda que simples, mede-se pelo seu reconhecimento e pelo respeito da comunidade, e é um bem precioso. E numa altura em que vemos novas formas de exploração do próximo (e de domesticação) é uma mensagem fundamental.


Há milagres da natureza, como este jovem destinado a uma vida irregular e criminosa, mas cuja sensibilidade, pacífica e leal, o liberta dessa programação.


O amor pode surgir de dois mundos diversos e paralelos: a casca protectora de uma família carinhosa e de um colégio fechado (a rapariga) e um meio hostil e violento onde não há afectos mas apenas manipulação (o rapaz).

 

 

 

Aqui também, a navegar...

 

 

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publicado às 08:22

Steinbeck e John Ford

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 21.02.08

 

As Vinhas da Ira.A fotografia, aquele contraste a preto e branco, em planos impossivelmente poéticos e dramáticos… é o que retive da primeira parte do filme. A casa vazia, os campos abandonados, a seca…

Toda a viagem forçada rumo a oeste, a família deslocada na busca desesperada da sobrevivência… A dignidade humana, mesmo nas maiores privações e dificuldades.

E aquela mãe. A mãe que transforma a dor em força, que está, que permanece, que não desiste. A mãe que abraça, que conforta, que anima.

É todo o povo americano que aqui é lembrado por John Ford, todo o seu sofrimento e coragem. É um poema à dignidade de homens e mulheres que tudo perderam menos a sua humanidade.

É toda a atmosfera da Grande Depressão. Com aqueles planos, aqueles contrastes, que são simplesmente de tirar o fôlego. Como John Ford consegue aquela atmosfera a preto e branco… é um verdadeiro mistério.

 

 

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publicado às 15:53

O indivíduo e a comunidade

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 22.12.07

Em It’s a Wonderful Life não é só recuperar a vida, é dar-lhe um novo sentido. É entender todo o percurso.

O que parece uma série de cedências, de desistências, de sonhos desfeitos ou adiados, transforma-se no essencial da sua vida. O que parece um terrível falhanço, de oportunidades perdidas, ganha uma dimensão maior, de comunidade. Aquele homem tocara a vida das pessoas mais próximas e, sem o saber, de muitas outras vidas.

Os diálogos em Capra… as personagens… o tempo certo, a magnífica gestão do tempo e das ideias…

E as pequeninas coisas, a dimensão que ganham na vida de uma pessoa. O corrimão a precisar de arranjo, as pétalas da flor da filha. Capra entende a alma humana, os desejos, os sonhos, as angústias, as dúvidas, as frustrações.

E propõe uma verdadeira reviravolta na lógica inexorável da evolução humana. Aqui o essencial permanece: a amizade, o valor da vida, a lealdade, a gratidão.

Mas já repararam bem com que modelo de cidade e de estilo de vida se assemelham as nossas cidades actuais? Capra soube prevê-lo nos anos 40. Está lá tudo ou quase tudo. Não é fascinante?

 

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publicado às 16:30

The Best Years of Our Lives

por Ana Gabriela A. S. Fernandes, em 27.11.07

Voltar a casa. Expectativas, ansiedade, receio. Perceber que muita coisa mudou. Perceber que se é preterido no aeroporto por um empresário rico, por exemplo. Perceber que o seu papel já não é valorizado, que já se passou para o fim da lista. O oportunismo natural das sociedades. Isto é universal, mas aqui é a América. Onde tudo parece andar mais depressa.

Voltando atrás. Ao aeroporto onde os nossos soldados esperam por uma vaga num avião que os leve de volta a casa. Têm postos militares e especialidades diferentes. O que não os impede de confraternizar como se já se conhecessem. Há uma cumplicidade imediata naquele trio. A consciência da sua humanidade e do que é essencial: os afectos, e integrar-se de novo na comunidade, num outro papel em que se sintam úteis.

O marinheiro ficou mutilado e usa próteses de forma hábil, fisicamente mantém a autonomia, mas receia que a namorada, ainda muito jovem, se impressione. O cabo, o mais velho, é casado, tem dois filhos, trabalha num banco e vive confortavelmente numa das avenidas modernas. O piloto, recém-casado, é o mais medalhado mas também o mais ferido na alma, mantém o pesadelo nocturno da morte de um companheiro.Foi por esta ordem que foram sendo entregues nas suas casas, nervosos, hesitantes, amedrontados.As guerras utilizam e trituram vidas de jovens. Depois, largam-nos sem qualquer sentido de responsabilidade. Sem qualquer respeito pelo que viveram e passaram. E estamos a falar dos que voltam…Estes voltaram. E dão-nos uma lição de humildade, dignidade e humanidade que é raro, raríssimo ver hoje em dia nas nossas comunidades modernas. Mostram-nos o que de essencial se está a perder. Todos eles encontram o seu lugar depois de sofrer decepções, depois de enfrentar a frieza e o cinismo. E todos eles encontram o afecto. E todos, de forma comovente.

 

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publicado às 15:16


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